Venho aqui e vou embora, trazida por uma inspiração soluçada. Leio, trabalho, dirijo, converso e pronto: apareço, escrevo umas linhas. Apareça também, sempre, quando em vez, assim como eu. E seja bem-vindo.

sábado, abril 24, 2010

Sobre dislexia, arte e trabalho ou O mundo saturno devora mesmo seus filhos

A última Bienal foi reveladora. Em um stand de livros sobre educação, descobri que sou disléxica. Reconheci em um livro especializado os exercícios que realizava na infância com uma professora diferente das outras, cuja disciplina era ministrada apenas para mim, depois das aulas. Os tais encontros, do pouco que relembro, começaram entre o jardim II e a alfabetização, quando engatinhei minhas primeiras palavras. Recordo parcamente o rosto atônito da professora regular.  “A menina escreve espelhado, de trás pra frente, de cabeça para baixo!”, deviam exclamar. Era preciso um tratamento.

A professora diferente, uma psicoterapeuta - hoje sei, consertou-me a escrita e tentou honradamente ensinar-me o que era direita e esquerda, canhota e destra. Não conseguiu, contudo, até hoje me confundo. Mas não me quis obrigar a ser destra, o mais importante.  Esta era minha lógica de infante: se meus colegas destros escrevem da esquerda para a direita, eu, canhota, devo começar ao contrário. Faz sentido, não? À época, fazia muito, exceto para o resto da sala, o resto do mundo.





O vendedor, às portas do stand, com o livro debaixo do braço, disse-me que, se não sou disléxica tenho, por conta da estória supracitada, fortes indícios. Talvez o seja mesmo. Esses dias, pensei como seria bom se o fosse, talvez assim se explicasse a falta de concentração, de compreensão leitora (algumas vezes), as certas habilidades e a estranha sensação de ser um cubo forçado a encaixar-se em um vão piramidal. Ao menos, seria melhor ser diagnosticada como disléxica do que como artista, que sabe desenhar, pintar, atuar, escrever, tocar, mas não consegue viver disso.

Quem nasce artista hoje é um desgraçado mesmo. Não se vive bem das artes, não apenas delas. E o artista, do que entendo, é aquele que não consegue fazer outra coisa senão arte, não aguenta. Pablo Picasso por exemplo não estudou, não conseguiu permanecer na escola, por conta da ânsia de pintar e somente. Viveu disso e para isso, mas desgraçadamente, sobretudo porque sua pintura nem isso era, a principio, considerada. Sofro hoje do contrário: com o advento da arte contemporânea, pinturas e desenhos como os meus, tão “século XVIII”, caíram em desuso, não passam de rabiscos acadêmicos demais. Com arte dificilmente sustenta-se filhos, tem-se uma vida normal. Alcança-se esta primazia, em geral, no fim da vida, depois da fome, da miséria, da solidão, do vício, depois de uma trajetória longa e estafante. Pior é que quem nasce pra ser artista, só é feliz dessa forma. Difícil ter outro jeito. Está discordando deste parágrafo? Bem que eu gostaria.

Na especialização, perguntaram-me das minhas experiências escolares. Ora, ruins e boas, como a de todo o mundo. Mas se quer saber: prefiro os portões da escola ao amplo pátio do mercado de trabalho, da livre concorrência e da competitividade, uma panacéia de ofertas e procuras por profissionais perfeitos, competentemente existentes no mundo das ideias apenas. Por mim, deixaria o emprego e tornaria ao status de estudante profissional, cuidando em aprender e em produzir um extenso portfólio de desenhos e pinturas em aquarela, nanquim, carvão, lápis e vetor. Nada tão simples quanto sugere o texto. E como disse no exercício de classe: melhor ser obrigada a aprender do que a saber tudo.

Se pudesse escolher, teria nascido com habilidade para as ciências exatas ou com concentração e disciplina o bastante para ter sido médica (para tanto, precisaria ainda não ter ojeriza a cirurgias).

Mas se fosse uma troca, deixar o desenho e a escrita em nome da matemática e da física, ou da biologia e da química, assim definitivamente... diria: não faço ideia. Difícil demais.

2 comentários:

Mayara Carol Araujo disse...

A imagem é Saturno devorando a sus hijos, de Francisco Goya, de 1815.


"O sono do razão produz monstros", do Goya também.

Lauro disse...

Desenhando como vc desenha Mayara, que importa se é desléxica??? O que eu vi aqui foi um talento enorme, fiquei muito impressionado com seus desenhos e a maneira cativante como escreve (adorei seu perfil- jornalista com fins lucrativos, haha, eu também, infelizmente, pelo menos não é assessora de imprensa,risos).

Vc me permitiria usar algumas ilustrações suas daqui no meu blog que vc me deu a honra de seguir? Com o devido crédito, óbvio.

Eu também adoro essa pintura de Goya, até escrevi algo sobre ela . Se quiser leia no link a seguir, ah e por favor comente o blog, sinto falta disso. Abraços e bem-vinda:
http://amacula2.blogspot.com/2008/08/diferenas-entre-objetos-esteticamente.html

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